Promovida pelo Núcleo de Sucessão da ACIC, a segunda edição do evento reuniu histórias de empresas familiares e reflexões sobre liderança, governança e continuidade dos negócios

A sucessão começa a ser construída desde a abertura da empresa. Essa foi uma das reflexões da segunda edição do DNA – Dinastia, Negócios e Amanhã. Promovido pelo Núcleo de Sucessão da Associação Comercial, Industrial, Agronegócio e Serviços de Chapecó (ACIC), o evento reuniu aos menos 250 empresários, gestores e sucessores na quinta-feira (24), no Clube Recreativo Chapecoense, para discutir como preparar os negócios para o futuro.
A primeira vice-presidente da ACIC, Poliana de Oliveira, salientou a importância de manter o tema em discussão. “Tem uma palavra que eu gosto muito e uso no meu dia a dia, que é constância”, afirmou. De acordo com ela, falar de legado exige confiança e responsabilidade, construídas ao longo do tempo. O coordenador do Núcleo de Sucessão da ACIC, Vinicius Barozi, explicou que o propósito do DNA é incentivar as famílias empresárias a iniciar conversas sobre sucessão, respeitando as particularidades de cada negócio. “Todas as empresas são únicas. O que a gente realmente quer é provocar vocês a pensar, a começar uma conversa a respeito da sucessão”, disse. Atualmente, o Núcleo reúne 46 participantes.
Painel
O painel, mediado por Rafael Nascimento, contou com Eduardo Valduga, Roni Tasca e Fabrício Parisoto. Ao apresentar a conversa, Rafael observou que a sucessão já acontece no cotidiano das empresas; a questão é se ela está sendo planejada.
O enólogo e empresário, Eduardo Valduga, contou que sua trajetória na empresa familiar não começou com uma passagem de comando definida. Durante a crise econômica dos anos 1990, quando a Casa Valduga atravessava um período difícil, ele deixou o Brasil para buscar novas experiências. Ao retornar, percebeu que o conhecimento adquirido fora poderia contribuir para os negócios da família. A volta, porém, também trouxe divergências: inserir novas ideias em uma empresa construída por outra geração exigiu diálogo.
Ao falar sobre a expansão da produção sem perder a qualidade, Eduardo destacou a importância de contar com pessoas preparadas para preservar as características dos produtos e a identidade da marca. Para ele, um dos maiores desafios das empresas familiares está em distinguir as exigências do negócio dos vínculos entre pais, filhos e irmãos. “O negócio não é o problema”, afirmou. Na avaliação do empresário, os conflitos se tornam mais difíceis quando expectativas de desempenho se misturam aos sentimentos e às relações da família.
O empresário Fabrício Parisoto contou que, com o crescimento do Grupo Bugio, decisões antes tomadas informalmente, até mesmo nos almoços em família, passaram a exigir regras mais claras. Há cerca de cinco anos, a empresa estruturou um plano de governança e sucessão que, segundo ele, ajudou a separar as responsabilidades da família, dos sócios e dos gestores. Para Fabrício, o planejamento é mais saudável quando começa antes de uma urgência. “O melhor momento para fazer é quando está tudo certo”, afirmou.
O empresário também falou sobre os diferentes caminhos que os filhos podem seguir dentro de uma empresa familiar. Ser herdeiro, observou, não significa necessariamente ter interesse ou preparo para atuar na gestão. Fabrício citou a experiência da própria família, na qual os irmãos participam dos negócios de maneiras distintas, e defendeu que a continuidade depende de uma decisão compartilhada entre quem conduz a empresa e quem poderá assumir novas responsabilidades.
Responsabilidades
O empresário e presidente da CDL, Roni Tasca relembrou que cresceu no comércio da família e aprendeu, ainda jovem, a lidar com os clientes. A mãe, mais presente no dia a dia da loja, ensinou pelo exemplo a importância do atendimento; o pai foi uma referência nas decisões e na condução do negócio. Roni também comentou que ele e os irmãos receberam autonomia cedo, o que lhes permitiu assumir responsabilidades aos poucos.
Aos sucessores, deixou uma reflexão sobre o cuidado com o patrimônio e a saúde financeira da empresa. Contou que a família sempre adotou uma postura conservadora, mantendo as despesas abaixo da capacidade financeira do negócio. Para Roni, essa escolha faz parte da cultura que recebeu dos pais e o ajudou a compreender que crescer também exige maturidade para administrar recursos.
Após o painel, Marcelo M. Bertoldi, sócio do Marins Bertoldi Advogados e do MB Family Advisors, aprofundou o debate sobre governança em empresas familiares. Ele defendeu a definição de regras para lidar com divergências entre sócios, o preparo dos sucessores e a separação entre o patrimônio da família e o da empresa. Bertoldi sublinhou que não há uma data única para iniciar esse trabalho. Conforme o palestrante, a sucessão deve fazer parte das conversas da família empresária desde cedo, porque preparar novas lideranças e organizar decisões são tarefas contínuas.
Foto: MB Comunicação/ Divulgação