Especialista destaca que o crescimento representa uma oportunidade para o pescado brasileiro conquistar tanto o consumidor interno quanto o mercado externo

O mercado global de aquicultura foi avaliado em US$ 607,13 bilhões em 2025 e projeta-se que cresça de US$ 653,88 bilhões em 2026 para US$ 1150,64 bilhões em 2034, apresentando uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 7,32% durante o período de previsão segundo a Fortune Business Insights. A região Ásia-Pacífico ainda domina esse mercado, com uma participação de 63,44% em 2025.
“O que se vê globalmente é um aumento no consumo e na demanda para peixe de aquicultura. Nesse cenário, o Brasil pode emplacar mais uma proteína de qualidade nas gôndolas de todo o mundo. Temos, sim, o grande desafio de aumentar o consumo interno, mas contamos com cases de sucesso aqui mesmo. A América do Sul tem, no salmão chileno, um exemplo de indústria sofisticada com mercado externo aquecido”, destaca Eliana Panty, CEO do IFC Brasil.
A reflexão é de quem assistiu o consumo de carne suína no Brasil crescer cerca de 40% nos últimos dez anos. Esse aumento elevou o índice de 14 kg para mais de 20 kg por habitante ao ano, de acordo com dados oficiais divulgados pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS).
“O serviço coordenado nos pontos de venda, o treinamento de açougueiros e a desmistificação da carne suína junto a médicos, nutricionistas e atletas, chegando ao food service e às gôndolas com cortes versáteis e fracionados, formam um projeto precioso. A ABCS criou uma escola de como alavancar o consumo no varejo, estabelecendo parcerias com grandes redes de supermercados e tornando atrativos os cortes, a apresentação e os preços. Olhando assim, há muito por fazer com o peixe, mas com vantagens extras de que o apelo à saudabilidade já vem pronto!”, pontua Panty, CEO da Hollus Comunicação e Eventos e idealizadora do IFC Brasil, que deu origem a EXPOMAR, IFC Amazônia e Aqua Summit BR, eventos que movimentam o setor de pescados desde 2019.
A América do Sul come peixe?
A região da América do Sul não apresenta um consumo muito elevado de pescados e frutos do mar, mas alguns números escapam às estatísticas, por não passarem por processamento e terem venda local. Paralelamente à pesca industrial, observa-se uma demanda crescente pela pesca e pela aquicultura artesanais, o que abre caminho para o desenvolvimento do mercado, e a criação do hábito do pescado à mesa. “Além disso, os especialistas projetam que o mercado latino-americano registre um aumento na procura por diversos tipos de produtos do mar, como as versões enlatadas, impulsionado pela crescente demanda por produtos processados à base de proteínas marinhas.
“Embora diversos fatores influenciem o consumo desses produtos na região, incluindo hábitos alimentares, padrões culturais, aspectos sociodemográficos e o local de residência (litoral ou interior), os consumidores também e a mudança na atitude dos consumidores também mudaram sua atitude em relação à nutrição. É aí que os peixes produzidos no interior do país começam a ganhar destaque nas mesas de restaurantes e no dia a dia das famílias”, observa Panty, apontando uma oportunidade de ampliação. “O consumo médio de peixe no Brasil é de cerca de 10,5 kg por pessoa ao ano. O valor fica abaixo dos 12 kg anuais recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e da média global, que gira em torno de 20 kg por habitante”, complementa.
Sustentabilidade e equidade
O mercado global tem sido impulsionado por crescentes preocupações com a sustentabilidade, aumento da demanda por frutos do mar e avanços tecnológicos nas práticas de piscicultura. Além disso, frente ao aumento do consumo de alimentos e o crescimento populacional global, a aquicultura emergiu como uma solução estratégica para atender à demanda mundial por proteínas.
“O consumo de proteína tem apresentado tendência de alta, nos mercados mais sofisticados o peixe sai com vantagens no tempo de preparo, apelo saudável e facilidade de acesso, mas que ainda esbarra no preço. Nos mercados com maior potencial de compra, o apelo sustentável direciona para a compra de peixes menores, que ocupam níveis mais baixos da cadeia alimentar, como sardinhas e mariscos; ou peixes de cultivo com certificação de sustentabilidade, uma tendência que precisamos observar”, alerta.
“As cooperativas, por exemplo, já praticam o fair pay com um modelo conhecido de remuneração justa. Esse sistema conta com trabalhadores ou associados com remuneração equitativa, divisão de lucros e cota-capital que, muitas vezes, é da mulher dentro de uma família associada. Hoje, as mulheres representam 40% dos cooperados e 23% das lideranças no cooperativismo brasileiro. Temos um modelo apreciado pelos consumidores, só precisamos contar melhor essa história para vender mais e melhor”, complementa Panty.
Tendências do mercado de aquicultura
Finalizando, Panty reforça a crescente atenção à sustentabilidade e às práticas que devem moldar o setor: “Com o aumento da demanda global por alimentos e a pesca extrativa operando em seus limites, a adoção de práticas sustentáveis é essencial para a segurança alimentar e o crescimento econômico. Essas práticas também ajudam a reduzir a pressão sobre os estoques de peixes selvagens e a fornecer pescados alternativos. “Recentemente, no IFC Amazônia, fui questionada sobre o porquê de as pessoas deixarem de consumir um peixe nativo, famoso pela carne branca e saborosa, para consumir um peixe de cultivo. Respondi com outras perguntas: a que preço, a que custo ambiental e por quanto tempo teremos espécies nativas em abundância para serem pescadas? Por isso, o futuro do pescado aponta para a piscicultura”!