HISTÓRIAS DOS PARAJASC

Poder fazer pipoca para a filha, atualmente com sete anos, foi o primeiro objetivo de Lucélia Flores quando começou a academia para recuperar os movimentos das mãos e braços, após ter sido vítima de uma doença degenerativa que a deixou tetraplégica. “Eu queria poder mexer a pipoca para quando ela pedisse no final da tarde”, disse Lucélia.
Os primeiros sintomas de perda de movimentos vieram em 2023, quando ela chegou até a bater o carro. “Depois de vinte dias estava tetraplégica. Cheguei a ficar sem a visão, pois é uma doença que inflama o sistema nervoso central. Fui fazendo tratamento, tomando medicação e recuperando os movimentos de mão e braço. Mas o que mais me marcou foi quando saí do hospital, em cadeira de rodas, e com um cateter no pescoço. Foi planejada uma fala para a minha filha, de que eu estaria numa diferente e numa cadeira de rodas. Quando cheguei ela me abraçou e disse: o que você tem diferente que eu não estou vendo? Foi uma lição pra mim pois ela viu minha deficiência motora como algo insignificante. Então tudo o que eu conquistasse a partir daquele momento seria uma vitória para ela. Ela me deu uma força que até hoje ela não imagina”, disse Lucélia.
Atualmente ela concilia as atividades, cuidando da filha pela manhã, e atuando no escritório de advocacia à tarde. Também encontra tempo para treinar.
Há cerca de dois anos ela foi num Festival Paralímpico de Chapecó e conversou com um paratleta da equipe de Handebol em Cadeira de Rodas Falcões do Oeste, que são multicampeões nos Parajasc e estão entres os três melhores do Brasil. Ela começou a treinar junto com a equipe masculina e já conquistou um terceiro lugar no Campeonato Brasileiro, só que competindo por uma equipe do Paraná, pois Chapecó não tinha equipe masculino. Também foi convocada para a Seleção Brasileira, numa lista inicial.
“Eu sou bem competitiva. E treinar com a equipe masculina ajuda a aumentar meu nível. Treinar com eles acredito que colaborou para ser convocada. O esporte é algo que faço para mim. O esporte ajuda. Não tanto fisicamente, mas psicologicamente. Ele me levou a vários lugares, como CT Paraolímpico de São Paulo que é gigantesco, extraordinário, com adaptações de banheiro, academia, a acessibilidade. O esporte faz com que as pessoas conheçam lugares”, disse Lucelia.
Já nos Parajasc, será sua primeira participação, então, sua meta é mais modesta, pois na maioria das provas, como lançamento de disco, dardo, peso e corrida em cadeira de rodas, está treinando há pouco tempo.
“Para mim participar dos Parajasc representa uma pequena história da minha vida, em que superei muitas coisas. Representa superação, vitória, representa o extraordinário da vida. Por mais que antes vivia com minhas pernas normais, eu não vivia isso. Muitas vezes penso que sou mais feliz agora do que antes. Eu vejo a vida diferente. Eu olho par a janela da minha casa e vejo a árvore crescendo, cada vez mais verde. A forma como vê o mundo é diferente, vê com mais empatia, que pequenas dificuldades não são tão grandiosas. Os Parajasc representam vitória para todos os atletas. É um orgulho competir em casa. Convido a todos que venham assistir, vibrar. Quem sabe com uma das imagens daqui cada um possa construir dentro de si algo que está faltando.”, disse.
Lucelia disse que cada conquista, por menor que seja, ela dedica para a filha. “Cada coisa que eu faço é uma vitória, para a Maria Vitória”.
Fotos: Arquivo Pessoal/ Divulgação