Em agosto, mês de conscientização sobre o tema, nova legislação amplia o olhar para esses estudantes

Altas habilidades nem sempre aparecem na forma de notas acima da média ou de um desempenho escolar excepcional. Elas também podem estar por trás da curiosidade intensa, da criatividade, dos questionamentos frequentes, do interesse por assuntos incomuns para a idade e até de comportamentos interpretados como desafiadores. Em agosto, mês dedicado à conscientização sobre as Altas Habilidades (AH)/Superdotação (SD), o debate ganha ainda mais relevância diante da criação, em junho deste ano, da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, por meio da Lei nº 15.436.
Para a terapeuta de família e casal, Fabiana Ribas, ampliar a informação sobre o tema é fundamental para que características apresentadas ainda na infância não sejam interpretadas apenas como problemas de comportamento. A identificação e a busca por apoio especializado podem fazer diferença no desenvolvimento dessas crianças, especialmente quando família e escola atuam de forma conjunta.

A precocidade nos marcos do desenvolvimento pode ser um dos sinais observados. Começar a caminhar antes dos 12 meses, falar com clareza antes dos dois anos, apresentar curiosidade aguçada e questionamentos frequentes, demonstrar criatividade elevada, interesse por atividades incomuns para a faixa etária, além de agitação e impulsividade acima do esperado para a idade, estão entre características que podem chamar a atenção. “Isso não significa, porém, que todas as crianças com altas habilidades apresentem os mesmos comportamentos ou tenham necessariamente desempenho escolar elevado”, lembra a terapeuta.

Desafios diários

Um dos desafios, segundo Fabiana, está justamente na forma como alguns comportamentos são interpretados pelos adultos. Crianças com altas habilidades ou outras neurodivergências invisíveis podem vivenciar a repressão de sentimentos e atitudes quando aquilo que expressam não é compreendido. Por isso, agosto também se torna uma oportunidade para desmistificar a ideia de que crianças com altas habilidades são simplesmente dramáticas, excessivamente sensíveis, questionadoras ou difíceis. Por trás dessas manifestações pode existir uma necessidade de compreensão emocional e de um ambiente capaz de acolher suas particularidades.

“Eu acredito que as altas habilidades não são um fenômeno isolado. É algo mais presente do que imaginamos e precisamos saber como amparar essas crianças e, especialmente, suas famílias. Nem sempre a criança com essa condição será a melhor da sala. Às vezes, será aquela que vive entediada, que mascara emoções, que afronta ou questiona, mas que, na verdade, busca compreensão e afeto”, destaca Fabiana.

Legislação prevê cadastro nacional

A legislação aprovada neste ano representa um avanço nesse processo ao instituir a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação e prever a identificação e o cadastramento desses estudantes matriculados na educação básica e na educação superior. A criação de um cadastro nacional já estava prevista desde 2015 na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), mas ainda não havia sido efetivada. A nova legislação também contempla pessoas com dupla excepcionalidade (DE), ou seja, aquelas que, além de apresentarem altas habilidades ou superdotação, possuem também um transtorno ou uma deficiência.

Dados da Agência Senado, destacam que o Censo Escolar de 2025 registrou cerca de 56 mil estudantes formalmente identificados com altas habilidades ou superdotação. O número reforça a importância de ampliar a informação e o olhar para características que podem permanecer sem identificação ao longo da infância e da trajetória escolar. “Identificar e acompanhar essas crianças desde cedo pode evitar frustrações e auxiliar no desenvolvimento de suas potencialidades, sempre respeitando seus limites emocionais e sociais”, afirma Fabiana.

Foto: Divulgação

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